''Por detrás da janela''

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Acordei-me e fui a sala de refeições, um cômodo que fica ao lado da cozinha, é uma sala
escura e as janelas se mantém sempre fechadas, pois ninguém nunca fica por ali. Sentei-me à
mesa e escolhi uma broa de milho fresca, perfumada com erva doce, mas, havia em mim uma
sensação de afogamento, falta de ar. Frouxei um pouco o cachecol que trazia enrolado ao
pescoço, visto que, estava gelado o dia, ao menos ali dentro de casa.
Um pensamento meu trouxe logo a lembrança de que já vai longe a primavera, porque ando
ainda a me enrolar neste cachecol? Perguntei-me diante da tomada de consciência. Senti uma
saudade de alguma coisa que não sabia explicar naquele momento. Seria o sol?
Esqueci-me do café e da broa, percebi em mim a imensa vontade de sentir a brisa fresca da
manhã, senti muita saudade do aroma das Araucárias, das Macieiras e Laranjeiras, de ouvir os
passarinhos cantando com alegria, vê-los saltitando de galho em galho e seus voos livres. Uma
intensa vontade de ser aquecida pelo sol, de ver minha pele colorida pelos seus raios
luminosos.
Estar presa num quarto sombrio, a falta de ar fresco, a vontade desse contato com a natureza
era tão grande que pela sua falta até uma tristeza, proporcionalmente intensa, tomou-me.
Quando vi, já estava derramando lágrimas, que convidaram outras tristezas guardadas para
um melancólico banquete. Por alguns instantes eu perdi a conta do motivo pelo qual estava
assim.
O tempo foi passando, cansada da tristeza resolvi silenciar. Pedi que todo o movimento da
minha mente se calasse. Alguns teimosos pensamentos ainda faziam barulho, mas aos poucos,
fui vencendo as emoções danosas.
No silêncio interno senti um pouco de paz, na paz senti um pouco de amor por mim mesma,
senti impulso de fazer algo significativo, um agrado, um afago, um abraço em mim mesma.
Que calor gostoso no coração.
Nessa profusão de amor próprio, vibração meio rara em meus padrões emocionais, nasceu um
novo pensamento, banhado de leve alegria e esperança, como um recém-nascido animal que
deixa o ventre, a imagem mental veio das profundezas do meu ser e eu a pari.
E essa nova vibração parecia tentar unir palavras para se transformar em ideia. Com muito
custo, entendi o sussurro da minha intuição: Abra a janela! Abra a janela! Abra a janela! –
Num ímpeto obediente, eu corri até a janela, abri as pesadas cortinas empoeiradas, me
afoguei no pó e procurei pela chave do velho cadeado que a trancava.
Movida, agora, por um entusiasmo corri pelo cômodo, procurei em todos os cantos, potes,
gavetas, caixas, pacotes, envelopes, ufa! Encontrei a chave! Tão pequena e com tanto valor
naquele momento.
Corri até a janela, e delicadamente introduzi a pequena chave no cadeado meio enferrujado. A
essa altura já desconfiava de tudo o que me aguardava do outro lado dos vidros canelados que
embaçavam a paisagem.
Forcei a chave, quase a quebrei, mas ele cedeu e abriu. Forcei agora as partes deslizantes da
janela, o vitrô parecia emperrado, mas, cedeu também e, se abriu.

Abriu e eu vi.
De novo as lágrimas querendo participar, incrível como elas gostam de me visitar, tudo bem
venham, mas fiquem quietas!
Tudo estava lá, não era somente minha imaginação, os grandes pinheiros, as árvores
perfumadas por flores e frutos, os passarinhos contentes e ágeis, o aroma, a brisa, o sol. Um
misto de surpresa e indignação por ter ficado tanto tempo triste, por ter perdido tanta luz do
sol.
Deixei-me ser invadida pela luz por inteira.
Joguei fora as emoções densas, o agora me invadiu e preencheu toda a minha consciência.
Que paz estava naquele presente por detrás da janela.
Um presente que me convidava a apreciar tudo de forma mais profunda. Havia uma mistura
entre o que estava fora e o que estava em meu interior.
Como é bom desfrutar do que existe. E o melhor, eu posso entrar na paisagem ser eu mesma.
Posso ser também o canto, o aroma e a luz da natureza.
Sim, eu sou tudo isso também. Eu sou a natureza!
Como é bom ouvir com a alma, iluminar o coração, dissolver tristeza, esfriar a irritação e a
impaciência, misturar-me às ondas de luz colorida e romper as fronteiras de quem eu sou.
Senti-me a autoridade que comanda meu mundo interior. Como é incrível ocupar esse lugar
em si mesma, entrar nesse estado de consciência.
Como é bom abrir cortinas, tirar o pó, procurar a chave, abrir cadeado, eliminar obstáculos,
limpar a mente, embalar-se na sintonia divina, dançar no ritmo dos ciclos da vida, respirar na
calma e na paz dentro de si e repousar no próprio amor ou no amor próprio.
Limpar o caminho, tirar os obstáculos, desconfiar da tristeza demorada, dos nãos repetidos
internos e externos, dos sins repetidos, de dentro de fora, das caras feias, das travas, da
ansiedade que te priva do que a vida oferece no agora.
Sentei-me novamente à mesa, agora revigorada e com fome, com disposição para sentir o
sabor da broa perfumada e tomar o delicioso café que tanto aprecio e até havia esquecido.
Sem contato com o mundo interior, os sabores, os perfumes, os abraços, os carinhos, o riso,
tudo havia ficado invisível à minha percepção. Com a atenção em cada estímulo tomei a
refeição e resumi o episódio para guarda na memória assim:
A intuição fica esperando o silêncio da mente para sussurrar e ajudar-nos a parir o melhor de
nós. Há uma Essência repleta de sabedoria e respostas dentro de nós. É só abrir a janela!

Autora: Eloisa Kulcheski

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''A Escrita do Coração''

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Nem sempre é mesma que se faz na escola,
Aquela é o símbolo do que se vai no coração,
Essa outra, escorrega da mente e não cola,
A receita para essa escrita é a seguinte:
Junte-se a vibração de uma boa emoção,
Emoção forte, que traga suspiro, arranque arrepios,
Que te faça mergulhar no límpido oceano do amor,
Manancial que te deixa quase divino,
Que amolece as pernas e fortalece a alma.
À essas vibrações, junte um pouco de imaginação,
Fertilize seus sonhos, salpicando cores e luz, alegria e vontade.
Agora junte tudo isso, apure dentro do pensamento,
Deixe escorregar para o cérebro,
Na massa cinzenta deixe encorpar.
Quando começarem as sinapses surgir,
Está quase na hora de servir,
Sem pressa para não perder a ideia,
Deixe escorrer pelo sistema nervoso,
Quando estiver perto das mãos,
Prepare um papel muito limpo,
Acomode entre os dedos um lápis ou uma caneta,
Espere mais um pouquinho,
Banhe tudo numa boa coordenação motora e,
Pode desenformar,
Ou seja,
Escrever as palavras que nasceram no coração.

Autora: Eloisa Kulcheski

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''Num susto, a vida passou''

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Me demorei um pouco, para encontrar as palavras certas, para condensar todo o sentimento,
as memórias, as emoções e as crenças que guardo sobre a minha maternidade.
Tudo começou no ano de 1990, em meus rápidos dezenove anos de vida.
Fase essa que ocupou cada pedacinho de mim, que foi entrando devagarinho nos espaços do
meu corpo, dos meus pensamentos, dos meus movimentos, da minha cama e da minha casa.
Foi um tempo em que cada frase minha vinha com um ponto de interrogação no final.
A alegria andava abraçada comigo, certamente a melhor sensação que já pude sentir, maior do
que todas as dúvidas e dores.
Houve um despertar, me senti iniciada na ventura de ser uma fêmea poderosa. Entrei em
contato com um rio com fortes águas que passa por debaixo de mim, que mexe com toda a
água do meu corpo, aprendi a chamar essa força de Mulher Selvagem, inspirada pela Dra.
Clarissa Pinkola Éstes e sua majestosa obra “Mulheres que correm com os Lobos”.
O feminino e a maternidade me colocaram num lugar de superação e completa conexão com
minha essência.
Os anos passaram desde os longínquos anos 90, quando segurei nos braços uma linda menina
nos braços. Cinco anos mais tarde um menino veio juntar-se a ela e mais outro menino no raiar
do novo século, no ano de 2007. Minha maternidade já é uma jovem senhora de 30 anos.
Um dia destes, enquanto procurava um programa na televisão, passei por um desenho
animado e a música, a voz infantil e o colorido da tela me levaram a um momento de epifania.
Fiquei imóvel pensando e interrogando a mim mesma sobre quando foi que a infância havia
deixado a minha casa.
Quando foi que eu deixei de levar crianças para a escola?
Quando foi que eu parei de ir às homenagens às mães?
Quando foi que eu deixei de dançar no meio da sala ouvindo Balão Mágico, Palavra Cantada e
outras baladas infantis?
Socorro, agora percebi que, ao mesmo tempo em que eu corri preocupada com a
sobrevivência e as contas, vocês cresceram!
Num misto de saudade e felicidade deixei meu corpo cair no sofá lentamente e olhei para
minha sala de um jeito diferente, inventariando o agora. Parece coisa de quem não está bem
da cabeça, mas foi assim que ocorreu. Me senti como uma visita que veio do passado.
Surpresa, vi que o ambiente antes preenchido por brinquedos espalhados pelo chão, materiais
escolares pela mesa e farelos de biscoitos por toda parte, era agora organizado e limpo, tudo
no mesmo lugar, desde a última arrumação.
Procurei na memória quando foi que as pinturas rupestres das paredes haviam sido apagadas.
Tudo tão diferente de alguns anos atrás. Sem farelos, nem papel picado, cada coisa em seu
lugar, inclusive os bibelôs, os vasos, as toalhinhas bordadas e, lembrei da casa da minha avó.

Sim, minha casa agora é a casa da avó!
Eu sou a avó! Não tenho mais bebês, fraldas para trocar, não preciso levantar no meio da
noite, a não ser para esvaziar a bexiga. Minha coleção de pedras e cristais coloridos podem
ficar na mesa de centro. A televisão está disponível e em meus passeios posso levar somente
uma pequena bolsa tiracolo.
Quando foi que eles cresceram?
Um arrepio subiu lá do cóccix até a minha nuca. A lembrança do passado recente me trouxe
algumas conversas com meus filhos e percebi o quanto agora a vida deles é deles.
Minha filha já pariu três vezes, já passou por cinco gestações. Eu caminhei ao seu lado, mas
agora sou a espectadora, ela tem seu palco, ela escolhe as peças do jogo, eu estou na primeira
fila, até contribuo, escuto, choro junto e festejo todas as suas vitórias. Assim também com os
outros dois “meninos”.
Confesso que muitas vezes, no lugar deles, eu teria tomado atitudes diferentes, nem sempre
concordei com os passos que deram, mas recuar e permitir que cada um seja o autor de suas
histórias me deu um lugar especial, “o meu palco”.
Pisei, insegura no começo, nesse espaço que é agora a minha vida, só minha a maior parte do
tempo. Deu até para respirar fundo agora não é mesmo?
A verdade é que, agora é hora de acolher a minha própria história, ela continua, é um novo
tempo. Tempo de resgatar alguns planos interrompidos quando a alegria da maternidade me
abraçou, tempo de andar devagar, saboreando cada instante com a sabedoria adquirida até
aqui e ser companheira, em primeiro lugar, de mim mesma.
Eu acredito que ser mãe de filhos adultos é aprender a soltar, a deixar ir com liberdade e ficar
na paz de quem fez o seu melhor, que talvez não tenha sido o esperado por todos, no entanto,
foi assim que foi.
É também uma boa hora para pegar uma fita métrica e observar que o amor que um dia
nasceu com o papel de mãe, somente cresceu, e na mesma proporção, ao tamanho físico
deles.
E que ainda ocupa todo o meu ser, que está registrado em cada célula do corpo, sendo
refletido nas emoções, sentimentos, lembranças e sonhos.
Que jamais diminuirá, pelo contrário, a cada lágrima e sofrimento pelo qual os filhos venham a
enfrentar, sentirei a dor como lamina atravessando meu coração.
Mas não se preocupe, você que é mãe e me acompanha nestas linhas. Quando os filhos
crescem, um manancial de coragem nos transforma em guardiã, guerreira, uma espécie de
heroína, não sei ao certo qual a palavra que define esse “poder”, mas é algo assim.
Eu aprendi também que, quando os filhos seguem guiando seus próprios passos, a nós mães,
cabe abençoar, com um tipo de amor que se desprende de quaisquer proventos, que é calmo,
alegre e sempre pronto a acolher, ouvir, falar e novamente deixar ir, entre um café e outro,
entre seu mestrado ou doutorado, entre sua nova carreira ou a viagem tão sonhada com o seu
par ou suas amigas, nós mães os acolhemos e a grade sabedoria está em dizer até mais.
Porque deixar ir a presença amada, contudo guardá-la sempre no coração, é deixar crescer.

Autora: Eloisa Kulcheski

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''SOU FRIDA''

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Tenho memórias tatuadas nos pensamentos dos dias
Poemas gritam no silêncio
das noites entristecidas
Emudeço no medo
aceito pela vergonha do
Holocausto no amor
Sigo calada, camuflando a própria dor
as histórias escrevo com lágrimas sofridas
tinta vermelha de tonalidade
enfraquecida.

Amanheço no resgate
da força que vem do útero!
A coragem vence o medo
consigo ver luz no escuro.
a vida percorre a veia
me livrei da teia.
sou forte
Sou mulher!
Sou aguerrida!
Não me kahlo na dor
“Sou FRIDA”.
Autora: Sharlene Serra
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